segunda-feira, junho 08, 2026

Tropa Alfa – Tundra

 

 

Embora tenha aparecido em várias outras publicações (a começar pelos X-men), a primeira revista da Tropa Alfa só foi publicada em 1983. Nessa época, o sucesso de histórias como a Saga da Fênix Negra tinham transformado John Byrne em um astro dos comics americanos, o que permitiu que ele fosse o desenhista e roteirista de um título próprio, com heróis criados por ele.

A história se passa logo depois do encontro da Tropa Alfa com os X-men, quando os dois grupos enfrentaram Wendigo.

Por alguma razão, apesar daquela missão ter dado certo, o governo canadense decide acabar com a Tropa.



Byrne, bem ao seu estilo, usa as primeiras páginas para rememorar acontecimentos e ainda explicar alguns fatos sobre o grupo, incluindo o fato de que existia também uma Tropa Beta e uma Tropa Gama.

Também são apresentados os principais personagens. Dentre eles, os mais interessantes do ponto de vista psicológico são Aurora e Estrela Polar. Nessas primeiras páginas descobrimos que a heroína tem um transtorno de personalidade. Em sua identidade civil ela é uma professora recatada, cheia de medos e neuroses e com sérios problemas com sua sexualidade -  o que se revela pela roupa que esconde todo o seu corpo. Já como Aurora é uma mulher sensual e impetuosa. Embora as múltiplas personalidades já fossem insinuadas em Cavaleiro da Lua, a personagem da Tropa Alfa foi, provavelmente, a primeira heroína em que o transtorno de dupla personalidade aparece de forma clara e declarada.

A personagem Aurora, com sua dupla personalidade, é a mais interessante desse volume. 


Apesar do grupo ter sido desfeito, o surgimento de uma ameaça, um monstro chamado Tundra, faz com que ele volte à ativa. O monstro é revivido por uma pessoa sobre a qual não sabemos nada, nem mesmo suas motivações, além do fato de que alguém riu do personagem e disse que ele estava louco. É um típico roteirismo de Byrne. Ele precisava de um vilão para a primeira história e simplesmente fez surgir um, sem muitas explicações. Afinal, o importante era a ação – e isso acontece com primazia.

Discipulo de Jack Kirby, Byrne sabia fazer cenas de impacto. 


Algo que Byrne faz bem nessa história é usar os personagens para trabalharem em equipe, usando seus poderes de forma complementar, embora isso pareça acontecer de forma totalmente intuitivamente, já que Vindix não exerce praticamente nenhuma liderença.

Um personagem que já mostrava muito carisma nessa primeira história era o baixinho Pigmeu, que, aliás, praticamente não participa do arranca-rabo com o vilão. Fica óbvio que Byrne se ressentia de não poder trabalhar com o Wolverine e criou um personagem semelhante para seu novo grupo.

Uma história curiosa sobre o pseudônimo Gian Danton

 


Algo que nunca contei sobre meu pseudônimo é que meu nome era para ser Gian Carlo (um nome muito comum na Itália). Alguns dias antes do parto, minha mãe mudou o primeiro nome para Ivan e ficou Ivan Carlo. 
Dezenove anos depois, quando precisei escolher um pseudônimo, escolhi Gian em homenagem ao Gian Lorenzo Bernini. E eu não sabia que era para ter sido esse o meu nome de batismo. Só fiquei sabendo 20 anos depois, quando minha mãe finalmente se lembrou de me contar a história.

Vermes da terra

 

Nas décadas de 1980 e 1990 a revista A espada selvagem de Conan era uma das melhores publicações em banca. Com um protagonista que se aproximava muito mais de um anti-herói, a revista foi um sopro de qualidade e conquistou leitores mais adultos, dos mais literatos aos que se preocupavam apenas com ação. E, entre tudo que foi publicado na revista, um dos maiores destaque foi um conto em duas partes, protagonizado por Bran Mak Morn, um personagem pouco conhecido de Robert E. Howard. Trata-se da saga Vermes da terra, publicada nos números 27 e 28 da revista.
A história já mereceria atenção só pela arte fenomenal de Tim Conrad (em parceria com Barry Windsor-Smith na primeira parte). Sujo e sombrio, o traço de Conrad deu à história um aspecto tenebroso que ia muito além do gênero espada e magia e se aproximava muito mais do terror. Algo, aliás, que já estava presente no conto original de Howard.

Na HQ a feiticeira é ainda mais repugnante que no conto original. 

Howard escreveu um conto em homenagem ao amigo H. P. Lovecraft (com o qual ele se correspondia) e recheou o texto de referência à mitologia lovecraftiana: Dagon e R’lyeh, por exemplo, são citados literalmente. Não por acaso, Lovecraft considerava esse o melhor texto de Howard (opinião da qual eu compartilho)
Na história, o rei dos pictos, disfarçado, vê o governador romano da Bretanha matar na cruz um picto cujo crime foi reagir à agressão de um vendedor romano que tentou roubá-lo. Bran Mak Morn envia seu amigo e auxiliar Grom para instigar as tribos contra Roma, mas parte em outra direção. Seu plano é vingar-se pessoalmente contra o governador Titus Sulla. Para isso ele vasculha os pântanos da Bretanha em busca de uma porta que o levará aos vermes da terra, seres monstruosos que viviam ali e foram expulsos para as profundezas pelos primeiros pictos. Ele pretende roubar uma pedra negra idolatrada por eles e, assim forçar os vermes a lhe entregarem Titus. Mas Gonar, o sacerdote de seu povo, lhe advertiu: há armas fúteis demais, mesmo contra os romanos!”, uma advertência totalmente ignorada.
A descida ao subsolo para roubar a pérola negra é puro terror... 


Começa aí uma jornada ao inferno.
O texto de Roy Thomas chega a um nível altíssimo de tensão ao descrever os locais por onde passa e o desenho de Conrad as destaca ainda mais.
Em alguns pontos o resultado chega a ser superior ao conto original, a exemplo de quando Bran encontra a bruxa de Dagon-moor, que lhe indicará onde encontrar a esfera negra. Em troca ela pede os beijos do rei. Aqui ela é vista como absolutamente asquerosa, sua pele repleta de manchas e pústulas, o que demostra o preço que Bran está disposto a pagar por sua vingança.
Thomas, um mestre do roteiro para quadrinhos, pula o diálogo posterior entre os dois, em que a bruxa conta como chegar à pedra, e o usa como legenda para as cenas em que o rei se embrenha nas profundezas da terra.
... assim como a sequência do lago. 


O texto de ambientação dão o clima de terror: “Fixando os olhos no interior do buraco, tudo que ele vê, porém, é a instransponível escuridão de um poço negro. Assim,  numa mescla de repulsa e temor que lhe retesam todos os músculos, Bran adentra o buraco sentindo-se engolido pela negritude quase tangível”.
Em tempo: existe uma versão nacional do conto Vermes da Terra, que integra o volume Bran Mak Mor - o último rei dos pictos, publicado pela editora Pipoca e Nanquim. Vale a pena conferir. Ah, e para quem quiser ler a HQ original, neste link dá para baixar vários números da Espada Selvagem de Conan, incluindo o 27 e o 28, as edições que publicaram a saga Vermes da Terra. 

Monstro do Pântano – A maldição

 


O número 40 revista Swamp Thing apresentou uma das mais instigantes histórias da saga gótico americano.

Na saga, Moore revisita os monstros clássicos do terror e nesse volume em específico ele se dedica a explorar a mitologia dos lobisomens. O diferencial aqui é que ele usou o tema como uma alegoria a respeito da repressão sofrida pelas mulheres. Assim, a maldição da lua, que transforma pessoas em lobisomens seria também a maldição das mulheres e o período menstrual.

Como pano de fundo de sua metáfora, Moore cria uma tribo fictícia na qual as mulheres eram confinadas durante a menstruação. 


A história começa com uma dona de casa fazendo compras enquanto rememora a história das índias Penamaquot, que, durante os período menstrual eram aprisionadas em uma cabana: “Eram mantidas nas escuridão, agachadas sem nada em que refletir além do fato de serem impuras. Até mesmo o toque da sombra delas contaminaria o solo, mirrando a colheita”.

Abrindo um parêntese: Aparentemente, a tribo Penamaquot não existe, sendo mais uma criação de Moore.

A protagonista vive uma relação abusiva. 


Oprimida pelo marido, Phoebe se transforma num lobisomen, mas sua vingança contra o esposo parece inócua e a única escapatória é o suicídio, assim ela se joga contra um mostruário de facas baratas, um tipo pobre de liberdade.

O texto é um dos exemplos da excelência de Moore: “Atrás da vidraça, uma máquina entoa canções de ninar para as esposas sonâmbulas que empurram seus rangentes carrinhos sob as luzes de neon cortejadas por moscas. O supermercado é uma avanlanche de odores: sabão em pó, queijo, desodorante... e o mais forte de todos, o de vida irreversivelmente estagnada da mulher. O de cabana vermelha. A cabana vermelha está em toda parte. Por que ninguém vê? Por que se entocam tão passivamente no escuro?”.

A cena da discórdia: Bissette não gostou. 


Apesar da qualidade da história, essa edição seria um dos motivos do fim da parceria com Steve Bissette, além da dificuldade do desenhista de acompanhar os prazos. Bissette era filho de um dono de mercearia e sabia que nenhum varejista exporia suas facas de uma forma tão perigosa.

Jornada nas estrelas – a máquina de destruição

 


A máquina de destruição, da segunda temporada da série clássica de Jornada nas estrelas é um daqueles episódio em que praticamente tudo funciona. Escrito por Norman Spinrad, a história leva a trama de Moby Dick para o espaço: um robô giganteco destrói planetas por onde passa, alimentando-se deles. Uma nave da federação, a USS Constellation tenta impedi-lo, mas acaba sendo inutilizada. Toda a tripulação desce para um planeta, que é destruído: o único sobrevivente é o Comodoro Decker, que ficara na Constellation.
A Enterprise chega exatamente nesse ponto: a Constallation está à deriva no espaço, praticamente todo um sistema solar foi destruído. O Comodoro é levado para a Enterprise, enquanto Kirk, Scotty e dois outros tripulantes ficam na nave avariada, tentando consertá-la enquanto ela é rebocada. É quando começa uma sequência frenética de ação e suspense: a Enterprise é atacada e se separada da Contellation. Findo o perigo, surge outro, ainda mais grave: o Comodoro, em sua obstinação louca, quer destruir o robô, toma o poder na Enteprise e coloca a nave numa missão suicida. Enquanto isso, Kirk na outra nave, à deriva no espaço.
Um dos problemas da série clássica era a extensão dos episódios, o que fazia com que muitas vezes se tornassem arrastados quando o roteiro era fraco. Não é o caso aqui: cada minuito é muito bem aproveitado para aumentar ainda mais a tensão da história.
Para não dizer que tudo funciona, há uma falha no roteiro: à certa altura simplesmente esquecem os dois outros tripulantes que estão com Kirk e Scotty na Constellation.

Coleção histórica Marvel: Mestre do Kung Fu

 



Esta é, provavelmente, a série mais aguardada da coleção histórica Marvel. Afinal, o Mestre do Kung Fu era um dos personagens mais queridos pelos leitores e estava fora das bancas há muito, muito tempo.
Este volume reúne as primeiras histórias do personagem que, criado na onda dos filmes de Kung Fu, sobreviveu à moda e se tornou uma das revistas mais longevas da Marvel, sendo publicada por mais de uma década.
Shang Chi foi criado por Steve Englehart e Jim Starlin, dois dos artistas mais revolucionários da época em que os hippies tomaram conta da Marvel. Os dois viram no sucesso do seriado Kung Fu, com David Carradine, a chance de criar uma série sobre filosofia oriental e procuraram o editor, Roy Thomas, que os alertou que a série pertencia à Warner, que não só não autorizaria a adaptação, como ainda poderia alertar a DC para lançar o gibi.
De alguma forma, a DC soube da história e o Publisher da editora, Carmine Infantino, teria dito: “Se eles lançarem Kung Fu, nós fazemos o Fu Manchu”.
O personagem foi criado por Englhehart e Starlin com o objetivo de introduzir filosofia oriental nos comics. 


Fu Manchu era um vilão clássico dos pulp fictions e cairia bem nessa nova onda de interesse pelo oriente. Alguém alertou Roy Thomas sobre isso e este comprou os direitos sobre Fu Manchu.
Assim, quando a nova revista foi lançada, seu protagonista, Shang Chi, seria um filho de Fu Manchu rebelado contra o pai. Essa união deu à série características próprias, misturando artes marciais com espionagem e uma relação conflituosa entre pai e filho numa época em que todas as histórias de sucesso tinham essa característica (a exemplo de Star Wars).
Starlin, Englehart e Al Milgrom aparecem na segunda história como viciados. 


Englehart e Starlin ficaram pouco tempo no título, mas providenciaram as bases para o estilo da revista. As histórias sempre iniciavam no auge da ação e flash backs contavam como se chegou ali. Além disso, o texto, poético, ecoavam a estética dos koans: “A espada do samurai canta atrás de mim como a canção de um beija-flor”. Starlin fazia sequências de ação com letras chinesas ao fundo. Parecia que os dois estavam tentando se afastar do estilo dos super-heróis e se aproximar de alguma outra estética. Ainda assim, soava estranho, em especial os desenhos de Starlin, que sempre foi melhor desenhando sagas estelares.
A revista só ganhou vida própria com a entrada de Paul Gulacy. Apesar do desenho inconstante, muitas vezes calcado no estilo de Jack Kirby e com erros de anatomia e perspectiva no início, ele logo mostrou que era o artista ideal para o projeto. 
O título só ganhou identidade com a entrada de Paul Gulacy. 


A sequência em que o herói sofre uma alucinação provocada por uma droga misturada com gasolina por seu pai (em um dos planos mirabolantes para escravizar os Estados Unidos) é um dos grandes momentos do álbum. Englehart não se atreveu nem mesmo a colocar texto na imagem, deixando que o desenho transmitisse tudo que a história pedia.
Posteriormente estaria formada a dupla clássica com a entrada do roteirista Doug Moench (antes disso haveria uma desajeitada história escrita por Gerry Conway, que parecia não ter entendido o personagem). Moench a princípio imitou o estilo de Englehart, mas aos poucos foi construindo seu próprio estilo.
Este álbum certamente vai agradar aos saudosistas e apresentar o personagem a toda uma nova geração que infelizmente não o conhecia. Por si só já teria o seu valor. De negativo, apenas a falta de textos explicativos e históricos. Considerando-se o tempo que o personagem não é publicado aqui, esses textos seriam de grande valor.

Thelma - Missão impossível da terceira idade



Um dos tesouros improváveis da Netflix é a comédia Thelma (2024), dirigida por Josh Margolin. Inspirada em uma experiência real vivida pela própria avó do diretor, a produção acompanha a veterana atriz June Squibb no papel de uma idosa de 93 anos que, após ser vítima do infame "golpe do falso sequestro" por telefone, decide fazer justiça com as próprias mãos e recuperar suas economias. Para levar a cabo sua missão, ela recruta a ajuda de um velho amigo que, a contragosto, a acompanha a bordo de uma scooter motorizada.

O grande trunfo da obra reside na sua abordagem narrativa, estruturada como se fosse uma versão para a terceira idade de Missão: Impossível. Sob essa ótica satírica, ações simples como caminhar por uma loja repleta de bibelôs de porcelana, descer de uma cama alta ou atravessar uma rua movimentada são filmadas como obstáculos milimetricamente calculados e de altíssimo risco — desafios que a obstinada protagonista precisa e consegue superar.

Vale destacar também a trilha sonora composta por Nick Chuba, elemento essencial para ditar o clima de urgência da aventura. As cenas em que a protagonista pilota a scooter, por exemplo, ganham contornos de uma perseguição de motos em alta velocidade, efeito alcançado graças à edição dinâmica e ao casamento perfeito com a música de Chuba. Vale o lembrete realista: a velocidade máxima de um veículo desses gira em torno de modestos 30 km/h.

Outro ponto alto é a emocionante relação de Thelma com seu neto. Ele protagoniza uma subtrama paralela, desesperado com o sumiço repentino da avó enquanto tenta localizá-la pela cidade.

Reflexo direto do carinho de um neto por sua avó, Thelma é um filme divertido e empolgante que, impulsionado pela performance enérgica e carismática de June Squibb, lança um olhar terno e necessário sobre a autonomia e os desafios enfrentados pela população idosa.

13 contistas da Amazônia

 


Esse é um item da coleção que guardo com carinho. O livro 13 contistas da Amazônia foi resultado de um concurso realizado pela UFPA em 1993 e revelou nomes desconhecidos, ou que já começavam a despontar na literatura amazônida. Olhem os três primeiros lugares. Fernando Canto é o atual presidente da Academia Amapaense de Letras. Paulo Tarso é o secretário da mesma academia. E ali no meio da lista, como menção honrosa, temos o meu irmão de coração, Alan Noronha, que infelizmente escreveu muito pouco, mas o pouco que produziu marcou época nos quadrinhos e na literatura paraense. Aliás, a edição que tenho é autografada pelo Alan Noronha, Fernando cabto e Paulo Tarso.  

domingo, junho 07, 2026

Toy Story 4

 


Depois do excelente Toy Story 3, era um risco enorme lançar um quarto filme da franquia. Afinal, os filmes anteriores haviam revolucionado a animação não só na técnica 3D, mas principalmente nos roteiros bem elaborados, com personagens carismáticos, que levavam pais e filhos para o cinema. A trilogia anterior tinha estabelecido um nível de qualidade, que foi num crescendo até o terceiro. O terceiro parecia um fechamento perfeito, com expectadores saindo chorando do cinema.
Então, assim como eu, muitos devem ter se perguntando se um quarto filme seria necessário e se conseguiria manter o nível de qualidade dos outros. As primeiras imagens, com um novo personagem, um garfinho de plástico tosco, também não ajudavam.
O resultado, no entanto, foi uma incrível surpresa. Toy story 4 mantém o mesmo nível dos filmes anteriores. Os novos personagens são muito bem desenvolvidos, cada um com sua personalidade, características, todos tridimensionais. Até o garfinho acaba se revelando um ótmo alívio cômico do filme: como foi feito de reaproveitamento de material, ele se considera lixo e não se aceita como brinquedo, o que leva a situações que arrancam gargalhadas da plateia. E sua importância para a menina Boonie é muito bem fundamentada.
Mais uma vez, um brinquedo perdido é o conflito que gera a trama: Woody deve resgatar o garfinho e levar para a menina, mas no meio do resgate encontra uma personagem do primeiro filme: a pastora Bo Pepp, agora totalmente repaginada e independente. Mas enconta também uma boneca marcada por um defeito de fabricação, que faz as vezes de vilão: sua caixa sonora está com problemas e ela considera que por isso não é adotada, o que faz dela um brinquedo amargo. Mais um ponto de inteligência da produção: a vilã não é realmente má. Sua motivação se adapta bem a um filme infantil e é, ao mesmo tempo, complexa.
Acrescente a isso muita ação, uma dinâmica entre Woody e Bo Pepp realmente inspirada.

X-men – Quem é o Mutante X?

 


Uma das razões pelas quais gosto muito da saga de Protheus é que, embora fosse uma história de super-heróis, a história flertava com o terror.

O vilão, afinal de contas, era um verdadeiro personagem de terror: alguém capaz de controlar a realidade, que precisa de corpos para se manter vivo (corpos que apodrecem com o tempo) e tem como único ponto fraco metais.

A segunda parte da história, publicada em The Uncanny X-men 126, é uma perfeita demonstração desse hibridismo.

Na HQ, os X-man chegam à ilha Muir após o apelo de Lorna e descobrem que Protheus se apossou de um dos corpos do Homem-múltiplo e pode estar em qualquer lugar da Escócia, usando provavelmente outro corpo.

O horror irrompe quando os mutantes encontram Proteus. Ele primeiro tenta se apossar do corpo de Wolverine, mas não consegue por conta do esqueleto de adamantium. Ele então distorce a realidade, fazendo com que Wolverine simplesmente pire (afinal, ele é como um animal, com sentidos super-aguçados).

Proteus tem o poder de distorcer a realidade. 


A sequência mostra a incrível interação da dupla John Byrne - Chris Claremont.

Byrne cria formas distorcidas, irreais, enquanto Claremont passa a sensação vivida pelos personagens Noturno e Wolverine através do texto, usando inclusive a sinestesia, uma figura de linguagem em que as sensações dos sentidos são confundidas: “Noturno faz o melhor que pode para tranquilizar seu amigo... sem saber que, graças a Protheus, Wolverine percebe suas palavras como gotas de chuva laranja”.

Nem Tempestade é páreo para Proteus. 

Nem mesmo Tempestade é capaz de dar conta do mutante X.

A edição termina com Ororo criando um vendaval enquanto o vilão avança sobre ela: “Ela ataca com tudo que tem... seu rosto implacável, enquanto percebe que, desta vez, dar o melhor de si não bastará. Pois, passo a passo, inexorável, Proteus está se aproximando. Se aproximando para matar!”.   

A impressão que tínhamos ao ler é de que aquele era um verdadeiro vilão, alguém capaz de matar sem nem mesmo pestanejar até os personagens mais poderosos.

Depois disso, as histórias de super-heróis convencionais pareciam todas infantis demais.

A noite do jogo

 


A noite do jogo conta a história de um casal apaixonado por jogos. Eles se conheceram em um jogo, o pedido de casamento foi feito durante um jogo – e o casamento foi um jogo. Mas um dia, quando o marido recebe o convite de seu irmão para participar de um jogo em sua casa, tudo sai errado. O que era para ser apenas um jogo encenado se transforma em um sequestro de verdade – ou não?
É essa dubiedade entre jogo e realidade que permeia A noite do Jogo.
A premissa poderia gerar um belo suspense policial – ou um filme que discutisse as fronteiras entre realidade e ficção no mundo atual.
Mas não era esse o objetivo dos produtores. Desde a primeira cena sabemos que se trata de uma comédia de erros e que todas as situações serão usadas para causar humor – como na cena em que o dono da casa está sendo de fato sequestrado e luta contra seus sequestradores e os demais se deliciam com um queijo e comentam o realismo da encenação.
A noite do jogo é um filme descompromissa cujo objetivo é arrancar risadas – e isso conseguem. Direção-roteiro e atuações formam uma perfeita engrenagem cômica.

DDA - Distúrbio de déficit de atenção

 

O livro Mentes Inquietas, de Ana Beatriz Silva (editora Gente) fala sobre uma doença chamada Distúrbio de Déficit de Atenção – DDA. Poucas vezes eu me vi tão bem retratado em um obra e, conversando com amigos, descobri que esse distúrbio é mais comum do que se imagina.  
A própria autora admite que o termo não é adequado, já que dá a entender que a pessoa jamais consegue se concentrar em algo. Na verdade, um DDA consegue, às vezes, concentrar-se em algo (como ler um livro) de tal forma que a casa pode cair que ele nem mesmo irá perceber. Na verdade, não seria uma falta de atenção, mas uma atenção instável: muita concentração em alguns momentos e nenhuma concentração em outros.
Para um DDA é um suplício concentrar-se em uma atividade obrigatória. A autora compara a situação a um carro desregulado, que gasta mais combustível e submete suas peças a um maior desgaste. Muitos DDAs descrevem, que, após atividades obrigatórias, sofrem um profundo cansaço mental e às vezes físico.
Um DDA  em uma palestra cujo tema não lhe é necessariamente interessante irá “viajar” em pensamentos próprios, desligando do tema da palestra. Ou então ficará se mexendo na cadeira ou mexendo em objetos, seu corpo refletindo sua vontade de sair dali correndo.
Os DDAs costumam ser impulsivos e atirar primeiro e pensar depois. A impulsividade, o fazer sem pensar, é uma das principais características desse distúrbio.
Um DDA está fazendo algo aqui e pensando em algo que deveria estar fazendo ali na frente. Isso às vezes até na leitura. Estou lendo aqui um livro de metodologia e estou pensando em um livro de Relações Públicas que preciso ler ou em um texto que preciso escrever, ou em um roteiro que me foi encomendado, ou em uma transparência que preciso preparar. Meu método de trabalho é o mais desorganizado possível. Estou lendo um livro, no meio dele encontro uma frase que me remete a algo que li em outro livro. Largo aquele primeiro livro de lado e pego o outro. No outro encontro outra frase que me remete a outra obra. Quando vejo, estou com cinco ou seis livros abertos na minha frente.
Um DDA está sempre se envolvendo em muitos projetos e nem sempre consegue terminá-los todos. Até porque, quando as coisas começam a dar errado, ele entra em desespero. Isso ocorre porque o cérebro tem dificuldade para acionar uma parte da memória chamada de funcional, cuja função é encontrar na mente situações semelhantes vividas no passado que possam ajudar no problema presente. Uma maneira de lidar com isso é o que os publicitários chamam de "deixar o problema dormir". Quando não consigo resolver um problema a ponto de entrar em desespero, deixo de lado a situação e vou fazer outra coisa. Aprendi isso com o monge Guilherme, do livro O Nome da Rosa. Quando a situação se tornava insolúvel, ele ia tirar uma soneca. Sherlock Holmes tocava violino. Após algum tempo a solução surge espontaneamente. 
Uma vez uma ex-aluna se espantou quando eu disse que estava lecionando metodologia científica: “Você não parece um professor de metodologia científica”. Mas é justamente isso: você procura conhecimentos que te ajudem a lidar com suas dificuldades. Trabalhar com metodologia é uma forma de me organizar melhor, de colocar em ordens os projetos... foi por essa mesma razão que comecei a me interessar pela teoria do caos...
Ainda assim não é fácil. Ao lado do meu computador, tenho um quadro de avisos. De um lado há o FAZER URGENTE, onde coloco as tarefas urgentes. Do outro o FAZER onde coloco as tarefas que necessitam ser feitas, mas não com urgência. Não fosse esse quadro, eu me perderia no meio de tantos projetos e tantas necessidades. Isso funciona para mim, pois, apesar da instabilidade de atenção, nunca perdi um prazo e felizmente nunca precisei tomar remédios.
Um DDA típico era o meu amigo Alan Noronha. Grande escritor, ele nunca conseguia terminar os trabalhos e cumprir os prazos. Há algum tempo recebi um e-mail dele dizendo que ele admira meu pragmatismo. Mal sabe ele que esse pragmatismo é conseguido às duras penas e graças a uma luta diária contra a instabilidade de atenção....
Para a autora, alguém um DDA leve não precisa necessariamente procurar tratamento médico, desde que isso não atrapalhe suas atividades: “O adulto ‘levemente’ DDA por certo não deve ter muitas reclamações a fazer. Ele é dotado de um alto nível de energia e entusiasmo. Sua ligeira desorganização não é suficiente para atrapalhar o andamento de seus projetos. No trabalho, pode-se dizer que, quando sob pressão e desafio, esta pessoa consegue sair-se melhor ainda

Conto Zen - O tigre e o morango

 


Certa vez um homem andava pela floresta quando foi perseguido por um tigre faminto. Sem outra opção, ele se agarrou a um arbusto e se pendurou num abismo na tentativa de escapar da fera. Quando olhou para baixo, percebeu que havia um outro tigre lá embaixo.

Ou seja: se a queda não o matasse, o felino o faria.

Mas o arbusto não era forte o bastante e a raiz começou a se desprender do solo. Além disso, dois ratos começam a roer a raíz.

A morte era certa.

Nisso, ele olhou para o lado e um viu morango crescendo na parede do penhasco. Largando uma das mãos, ele pegou o morango e comeu.

Foi o morango mais delicioso que ele já comera em toda a sua vida.   

Esse é uma das histórias mais famosas do zen-budismo. Ela reflete sobre assuntos essenciais: o homem pendurado no penhasco, à beira da morte representa todos nós, que em algum momento iremos morrer. Afinal, ninguém é imortal, a morte é inevitável.

Mas sua atitude é extremamente sábia. Ele percebe que a única forma de lidar com isso é viver o momento. Comer o morango representa isso, aproveitar o aqui e agora ao invés de nos preocuparmos com o passado ou o futuro. Isso é chamado no budismo de atenção plena.

Por outro lado, a certeza da morte, da transitoriedade da vida, faz com que cada momento seja especial. Talvez, se saboreasse a fruta em qualquer outra situação, o homem não se espantasse com seu sabor, mas ali, prestes a despencar no abismo, o sabor se torna inigualável. Como dizia Raul Seixas: “Morte morte morte que talvez seja o segredo dessa vida”.

Fundo do baú - Os herculóides

 


Os herculóides é uma série criada pelo desenhista Alex Toth para a Hanna-Barbera e exibida pela primeira vez nos EUA no ano de 1967 num total de 36 episódios. Cada episódio tinham duração de 9 minutos.
O seriado fazia parte de uma iniciativa da Hanna Barbera de investir em desenhos de aventura e ficção-científica e foram provavelmente o primeiro contato de muitas crianças com esses temas.
Os personagens eram o casal Zandor, Tara e o filho Dorno. A equipe ainda incluía alguns seres não humanos, como Zok, o dragão alado, Igoo, um gorila de pedra, Tundro, uma mistura de rinoceronte com um triceratops de dez patas e Gloop e Gleep, duas criaturas de um material elástico capazes de assumir todas as formas imagináveis.

Capitão América de John Byrne

 


No início da década de 1980, a Marvel resolveu trocar a equipe do título do Capitão América. Para desenhar chamaram uma estrela em ascensão na editora, John Byrne. Para escrever, colocaram o próprio editor do título Roger Stern, um estreante nos roteiros.
Essas histórias marcaram época e foram reunidas no volume sete da coleção Os heróis mais poderosos da Marvel.
A dupla começa desfazendo uma cagada de roteiristas anteriores, segundo os quais, na verdade o personagem era descendente de aristocratas, e não um garoto pobre de Nova York na época da recessão.
Um dos pontos altos dessa fase é o confronto com o Homem-Dragão. 


A primeira história é justamente o Capitão achando seu diário na Shield e descobrindo que a história da família aristocrata eram memórias falsas implantadas pelo governo norte-americano para proteger sua verdadeira identidade caso ele fosse aprisionado. Enquanto isso, Barão Strucker foge da prisão e invade a Shield com o objetivo de matar o sentinela da liberdade.
Posteriormente o Capitão enfrenta o Homem-dragão e Mecanus e depois impede que Mister Hyde destrua Nova York. Nesse meio tempo ainda encontra tempo para abdicar de ser candidato à presidência.
Roger Stern exagerava nos diálogos. 


John Byrne parecia à vontade desenhando o Capitão, um personagem criado pelo seu ídolo, Jack Kirby (eu me pergunto porque a Marvel não deu o personagem para o Byrne quando ele já estava famoso). Roger Stern, no entanto, nem sempre se saía bem. Ele exagerava no texto, muitas vezes deixando pouco espaço para os desenhos. Sua caracterização do personagem, no entanto, era perfeita: justo, honrado, democrata, um verdadeiro exemplo a ser seguido. Stern também introduz uma personagem nova, Bernie Rosenthal, uma das primeiras personagens dos quadrinhos declaradamente judias – e que viria a ser melhor desenvolvida por JM DeMatteis na fase seguinte.



O Capitão chega a concorrer à presidência. 

Mas a história realmente engrena quando começa a saga hoje conhecida como “Seu ódio se chama sangue”. Não por acaso, essas histórias são co-roteirizadas por John Byrne, que aqui ganha espaço para mostrar o ótimo narrador gráfico que iria se revelar.
Na trama, o Capitão viaja para a Inglaterra a pedido de Union Jack, um velho amigo dos tempos do grupo Os invasores. Ali estão acontecendo vários assassinatos e o velho herói acha que são obra de seu irmão, o vampiro nazista Barão Sangue. A história é cheia de ação e reviravoltas. E tem John Byrne em ótima forma. A capa que ele faz para o número 254 da revista, com o vampiro pulando sobre o Capitão enquanto o envelhecido Union Jack tenta se levantar da cadeira de rodas é simplesmente memorável e resumia muito bem todas as maiores qualidade da série.
A história do Barão Sangue é o melhor dessa fase. 


Infelizmente, Roger Stern brigou com o chefão da Marvel, Jim Shooter, e saiu da série. A razão é que Stern queria desenvolver tramas mais complexas para o Capitão e Shotter queria que as sagas não se alongassem muito. E, Byrne se concentrou nos X-men, que o tornariam a grande estrela do mercado americano.  
Entretanto, essa série é até hoje apontada como um dos melhores momentos do personagem.